Poemas Belos

Tuesday, January 09, 2007



Texto tirado do Google, muito interessante, para ler escutando Móveis Coloniais de Acaju.


Uma história esquecida – a revolta dos fabricantes de móveis de Acaju da Ilha dos Bananais no Séc. XIX.

" El tiempo consume la memoria de las cosas..."

Pedro Cieza de Léon.

“ A história hoje não é senão a malha fina do lembrado por cima do oceano do esquecido, mas o tempo avança e chegará a época dos milênios passados que a memória limitada dos indivíduos não poderá mais abraçar, assim séculos e milênios cairão em painéis inteiros, séculos de quadros e de música, séculos de descobertas, de batalhas, de livros, e isso será ruim porque o homem perderá noção de si mesmo e sua história, inatingível, inacabável, se reduzirá a alguns sinais esquemáticos desprovidos de sentido”

Milan Kundera - A Brincadeira

A tarde já ia alta naquele dia 26 de um julho seco do Planalto Central. O ano era 1773, e naqueles tempos se afastar do litoral era uma aventura, mas ora se não foi mesmo de aventura em aventura que se constituiu muito além do que determinava o tratado de Tordesilhas o território deste país Brasil, e o sertanista José Pinto Fonseca estava prestes a ter o retorno de sua aventura, porque foi nessa tarde alta de 26 de Julho de 1773 que ele, navegando o rio Araguaia, se deparou com a maior ilha fluvial do mundo, a Ilha do bananal.

O primeiro relato que temos dando notícias da Ilha do bananal foi feito pelo próprio sertanista e data de 1775. Na carta dirigida ao “General de Goyazes” o autor chega a mencionar a bandeira do paulista Pires de Campos, e o fato de que ele teria exterminado uma aldeia indígena naquela localidade cerca de 25 anos antes. Mas dessa aventura não se tem relato algum, sendo por isso José Pinto da Fonseca o “descobridor” oficial da ilha do Bananal.

José Pinto da Fonseca havia saído de Belém cerca de 3 meses antes. Desceu o rio Tocantins, depois o Araguia, por mais de 2.000 K.M. Em certo ponto, quando o rio Araguia segue pelo lado direito e o Javaés pelo esquerdo, deparou-se com a misteriosa e gigantesca ilha. A imensidão de terra de mais de 20.000 quilômetros quadrados coloca-se como um gigante desconhecido para os brasileiros. Sua história é marcada pela violência dos homens brancos contra as populações indígenas autóctones, contudo, o episódio mais triste e sangrento da esquecida história da ilha foi, sem dúvidas, a revolta dos camponeses fabricantes dos seculares móveis coloniais de Acajú. A historiografia têm ignorado sistematicamente esse que foi um dos episódios mais truculentos da nossa “pacífica” história. Ao persistimos no desconhecimento desse episódio, impomos aos fabricantes de Móveis de Acajú uma derrota não merecida, fazendo ter efeito as palavras de Hobsabawn “as sentenças que escrevemos em nossos aparentemente inócuos teclados podem ser sentenças de morte.”[1] Esta frase de Hobsbawn faz-nos pensar que são ainda mais profundas as implicações deste “esquecimento” histórico de que se está falando. Não se está simplesmente a negar a estas pessoas o direito a seu passado. Estar-se mesmo a negar-lhes a existência de seu próprio presente. Enfim, estar-se a negar-lhes sua própria existência. Caminha-se assim para o cumprimento das palavras de Kundera na epígrafe, fazendo com que muitos homens herdeiros destas tradições preteridas percam a noção de si mesmos e de sua história. Mas nesse caso fazemos ainda pior, porque sequer reduzimo-la a alguns sinais esquemáticos desprovidos de sentido. Simplesmente a esquecemo-la. É para evitar isso que nos dedicaremos agora a entender o que foi e como aconteceu essa revolta.

I

A madeira popularmente chamada de Acajú é na verdade o cedro-cheiroso (Cedrela odorata), também conhecido pelos nomes vulgares de cedro-fêmea, cedro-rosa, cedro-espanhol, cedro-vermelho e cedro-mogno é uma árvore da família das meliáceas e chega a atingir 30 m de altura. A madeira caracteriza-se pelo seu cerne vermelho e é muito utilizada e apreciada na produção de mobília.

A ilha do bananal é conhecida, entre outras coisas, por ser uma área onde a madeira Acajú é abundante. Desde o século XVI que os índios Javaé[2], uma das várias tribos que habitam a região, têm a madeira como uma fonte primordial quer seja para a confecção de utensílios de seu dia-a-dia, quer seja para utensílios ritualísticos, como os famosos cachimbos xamanísticos Javaé[3]. Estes cachimbos se distinguem dos cachimbos xamanísticos de outras tribos porque além de não serem um instrumento antropomórfico ou falomórfico – têm a forma de jacarés, sendo por isso chamados de Korera (jacaré na língua Javaé) - são feitos exclusivamente da madeira Acajú[4]. Depois que a ilha foi descoberta, grupos populacionais de portugueses passaram a ocupá-la juntamente com os índios, em um caso de coexistência pacífica raro no Brasil colonial. Os Portugueses que ali se fixaram também se dedicaram ao trabalho com a madeira, contudo se ocupavam primordialmente da fabricação de móveis coloniais, que eram muito apreciados no nordeste brasileiro, por mais difícil que fosse a chegada desses móveis vindos de “tão inóspitas regiões, ” como nos lembra o viajante Hercule Florence.[5] O sonho idílico da convivência entre portugueses e indígenas, aventado em obras como a de Gilberto Freyre, parecia ser verdade nesta parte do país, isso até um acontecimento que iria destruir o modo de vida das populações do bananal e causar um dos maiores derramentos de sangue da nossa história: a independência do Brasil.

II

Nos últimos anos o enfoque teórico que perpassou quase todas as análises sobre a independência do Brasil foi o de Caio Prado Júnior. Como nos explica Jurandir Malerba:

“Partindo de um ponto de vista marxista, ele procurou entender o "sentido" da colonização, inserindo a história do Brasil num contexto senão planetário, ao menos ocidental: a história do Brasil explicar-se-ia como um derivativo da história européia, no contexto da expansão do capitalismo comercial. Essa tese é a base das teorias da dependência.[6]

Na verdade, desde a chegada da família real portuguesa no Brasil e do Tratado de de 1810 que o Brasil era muito mais dependente da Inglaterra do que de Portugal, que a essa altura era não mais do que uma possesão da França Napoleônica. Essa dependência fica mais clara nas palavras de Freyre:

“Mesmo depois de proclamada a independência do Brasil, de promulgado, pelo novo Império, um código criminal e de instituído um sistema judiciário próprio, o governo britânico recusou a reconhecer como satisfatórios os juízes consagrados pela Constituição do Império, mantendo aqui os seus juizes conservadores (imposição do Tratado de 1810) – um privilégio extraterritorial que só desapareceria de todo em 1844, a despeito de não ter sido aceito senão com ressentimento pelos brasileiros, orgulhosos de seu novo status, o de nação politicamente independente, fato este que mostra a situação de quase Colônia do Brasil em face da Grã- Bretanha. À sombra de tais privilégios é que a economia brasileira fora imperialmente dominada pela

britânica.”[7]

Não é de se estranhar por isso que os britânicos tenham se apoderado, dentre outras coisas, da ilha do Bananal. Vindos em três ondas sucessivas pelo rio Tocantins, muito provavelmente ainda em busca do mítico “El Dorado”, hordas de exploradores e salteadores ingleses ocuparam e expulsaram da ilha parte da população indígena e portuguesa que ali vivia. Contudo, o pior para aqueles homens foi ver a destruição sistemática de suas criações. Calcula-se que mais de meia tonelada de madeira, em forma de móveis coloniais e cachimbos xamanísticos tenham sido destruídos pelos ingleses. A destruição, de maneira tão cruel e fortuita de objetos que tinham ao mesmo tempo uma importância econômica e ritualística causou uma revolta generalizada em toda a ilha. Hordas de colonos se uniram a dezenas de tribos indígenas para lutar sozinhos contra a opressão inglesa. Sabiam que não podiam contar com a ajuda do governo português, que ademais estava sujeito às vontades de Londres. Em um dos atos mais heróicos e marcantes da nossa história, portugueses e indígenas acabaram por expulsar no dia 05 de fevereiro de 1813 os últimos ingleses que ainda estavam aportados na ilha. Em uma batalha que tem para o Brasil o mesmo valor simbólico de uma batalha de Guararapes, a Revolta de Acajú, como ficou conhecida, devolveu àqueles homens e mulheres o direito de viver em sua terra e de produzir a sua arte.

Bibliografia

ALMEIDA, Fernando Mendes de. O Direito português no Brasil. In: HOLANDA, Sérgio

Buarque de, org. História geral da civilização brasileira. São Paulo : Difel, 1977.

ANASTASIA, Carla M. J. Vassalos rebeldes. Violência coletiva nas Minas na primeira metade

do século XVIII. Belo Horizonte: C/Arte, 1998.

BOURDIER, Pierre. Outline of a Theory of Practice. Cambridge : Cambridge University Press,

1977.

FIGUEIREDO, Luciano Raposo de Almeida. Protestos, revoltas e fiscalidade no Brasil

Colonial. LPH: Revista de História. 5 (1995): 56-87.

FIGUEIREDO, Luciano Raposo de Almeida. Estudo crítico: rapsódia de um bacharel.

Códice Costa Matoso. Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro, 1999.

GONZAGA, Thomaz Antonio. Tratado de Direito Natural. Belo Horizonte : Imprensa

Oficial, 1928.

HESPANHA, António Manuel. Às vésperas do Levianthan. Instituições e poder político. Coimbra:

Almedina, 1994.

HESPANHA, António Manuel. História de Portugal moderno: político e institucional. Lisboa:

Universidade Aberta, 1995.

LARA, Sílvia H. Introdução. Ordenações Filipinas. Livro V. 1999.

MOORE JR., Barrington. Injustice: the social bases of obedience and revolt. Cambridge: Cambridge

University Press, 1978.

SCOTT, James C. Domination and the arts of resistance.Hidden transcripts. Yale University

Press, 1990.

SCOTT, James C. Weapons of weak. Everyday forms of peasant resistence. New Haven:

Yale University Press, 1985.

SILVA, Flávio Marcus da. Negociação e controle. A política alimentar nas Minas setecentistas.

Belo Horizonte: UFMG, 2001.

SNELL, K. M. D. Annals of Labouring Poor. Cambridge: Cambridge University Press, 1985.

TAYLOR, William B. Drinking, homicide and rebellion in colonial mexican villages.

Stanford: Stanford University Press, 1979.

THOMPSON, E. P.. Custom, Law and Common Right. The moral economy reviewed. In:

Customs in common. New York, The New Press, 1991.



[1] Hobsbawm, Eric, On History, Nova Iorque, The New Press, 1997. pp.266-277.

[2] Os Javaé migraram para a ilha provavelmente vindos do Norte, à época da chegada portuguesa no Brasil. Falam a língua Javaé (família Karajá, tronco Macro-Jê).

[3] O Marechal Rondon esteve na Ilha do Bananal em uma aldeia Javaé, oportunidade em que chegou a fazer referência nas instruções protocolares entre chefes indígenas e o presidente Getúlio Vargas “Segundo o protocolo Javaé, ao Sr. Presidente da República ter-se-á entregado um cachimbo de madeira Acajú em que o Chefe de Estado devia tirar grandes baforadas voltadas para o lado em que nasce o Sol, ídolo daquela gente, por ela reverenciado como bem-feitor da natureza em que vive, de que vive e para que vive.” Rondon, Rumo ao Oeste in: LINS, IVAN A Obra Educativa do Gen. Rondon, RIO DE JANEIRO,1942

[4] Sobre o uso ritualístico das tribos indígenas do norte ver dissertação de mestrado intitulada "O fumo e os cachimbos cerâmicos na pré-história da Amazônia brasileira – Os 'sambaquieiros' de Alenquer e os Tapajó de Santarém" - defendida em julho de 2005 pela técnica do Museu Emílio Goeldi, Gilma d’Aquino, na Universidade Federal de Pernambuco. Nela a autora tenta investigar o porquê, quem, como e quando esses grupos amazônicos faziam uso do fumo e dos cachimbos cerâmicos. O trabalho parte da hipótese de que o fumo, por seu alto poder alucinógeno, era utilizado principalmente pelos pajés durante os rituais como forma de comunicação com os seres sobrenaturais. A autora analisou 143 cachimbos cerâmicos da reserva arqueológica do Museu Goeldi, que foram divididos em duas grandes classes de acordo com a forma. Os cachimbos tubulares, coletados pelo frei Protásio Frikel, entre os anos de 1939 e 1941, são originários de um sambaqui fluvial na região do Lago Grande do Curuá, no município de Alenquer. Os artefatos não têm datação, mas o antropólogo alemão Peter Hilbert, pesquisador do Museu Emílio Goeldi na década de 50, filiou esses cachimbos a uma fase que data de aproximadamente 350 anos a.C. Já o arqueólogo Mário Simões, também do Museu Goeldi, enquadrou os artefatos numa fase mais antiga, de cerca de 980 anos a.C.

[5] Florence, Hercule 1829-1830b 'Quelques anecdotes brésiliennes'. Em Hercule Florence. Continuation de l'esquisse du voyage de M. de Langsdorff dans l'intérieur du Brésil, depuis sept. 1825 jusqu'en mars 1829. Par le 2e. dessinateur de ce voyage Hercule Florence. Livre deuxième. Moscou, Academia de Ciências, fundo 63, inventário 1, manuscrito 8, fl. 71-78 (Cópias em microforma: Centro de Memória da Unicamp e Arquivo da Casa de Oswaldo Cruz).

[6] Pode-se encontrar uma apresentação sucinta das teses e da influência das teorias da dependência na historiografia latino-americana em, MALERBA, J. Nuevas perspectivas y problemas de la historiografia en América Latina. Historia General de América Latina. Paris: UNESCO, 2006 [no prelo]. (v.9, Teoria y metedología en la historia de América Latina). Sobre as teorias da independência e sua influência na historiografia latino-americana, cf. HALPERIN DONGHI, Túlio. "Dependency Theory" and Latin American Historiography. Latin American Research Review, v.17, n.1, p.115-130, 1982; LOVE, Joseph L. The Origins of Dependency Analysis. Journal of Latin America Studies, v.22, n.1, p.143-168, 1990; BERGQUIST, Charles. Latin America: A Dissenting View of 'Latin American History in World Perspectives. In: International Handbook of Historical Studies: Contemporary Research and Theories. George Iggers and Harold T. Parker (ed.). Westport CT: Greenwood Press, 1970.

[7] Freyre, Gilberto, Ingleses no Brasil. Aspectos da influência britânica sobre a vida, a paisagem e a

cultura do Brasil. Rio de Janeiro: Univer Cidade Editora, 2000.

1 Comments:

At 10:28 PM, Blogger Neto, said...

Sensacional meu professor!!

 

Post a Comment

Links to this post:

Create a Link

<< Home